O campo da sustentabilidade corporativa amadureceu no Brasil, mas ainda enfrenta desafios estruturais profundos. É o que mostra a Pesquisa Profissionais pelo Desenvolvimento Sustentável, publicada pela Associação Brasileira dos Profissionais pelo Desenvolvimento Sustentável (ABRAPS) em 2025.
Realizada com mais de mil profissionais de todo o país, o maior número desde a criação da entidade, esta quarta edição oferece um retrato detalhado sobre quem são, como pensam e como vivem os profissionais que impulsionam a agenda ESG no Brasil.
A Sustentabilidade Agora teve o prazer de apoiar essa edição da Pesquisa Profissionais pelo Desenvolvimento Sustentável, reforçando a importância de compreender a realidade e as perspectivas de quem, na prática, constrói a transição para uma economia mais justa, inclusiva e regenerativa.
A pesquisa e seu propósito
Desde 2011, a ABRAPS atua como uma rede de profissionais engajados na disseminação da cultura do desenvolvimento sustentável. A Pesquisa Profissionais pelo Desenvolvimento Sustentável surgiu como parte dessa missão, com o objetivo de identificar tendências, desafios e perfis da área.

A edição de 2025 foi coordenada por Renata Noschese, com apoio de Amanda Dorta, Mariana Mejorado e parceiros que ampliaram o alcance do levantamento entre eles, eu mesmo (Rafael Ávila) , Marcos Pinheiro, Celso Simões (Oppen Impacta) e Soul ESGS.
O método adotado foi o “bola de neve”, no qual os respondentes indicam novos participantes, gerando uma rede que amplia o alcance e a diversidade dos dados. Foram considerados resultados comparáveis às edições anteriores (2013, 2015 e 2017) para garantir consistência histórica.
O resultado da Pesquisa Profissionais pelo Desenvolvimento Sustentável é um panorama robusto e confiável da profissão, que permite compreender o estágio de maturidade do setor ESG no Brasil e, sobretudo, onde ainda precisamos evoluir.
1. Sustentabilidade: um campo com alta qualificação e baixa valorização
Um dos principais achados da Pesquisa Profissionais pelo Desenvolvimento Sustentável é o contraste entre a elevada qualificação acadêmica dos profissionais e o baixo reconhecimento financeiro.

Nada menos que 83% dos participantes têm pós-graduação ou mais, sendo 57% com MBA ou mestrado profissional e 19% com mestrado acadêmico. Trata-se de um índice muito superior à média nacional. Ainda assim, apenas 11% recebem acima de R$ 20.000, e a faixa salarial predominante é de R$ 3.001 a R$ 6.000.
A discrepância indica que, embora o tema ESG esteja em alta nas empresas e na mídia, o reconhecimento interno e financeiro dos profissionais de sustentabilidade ainda não acompanha o discurso. Em muitas organizações, a área segue vista como centro de custo, e não de geração de valor.
Esse cenário apresentado na Pesquisa Profissionais pelo Desenvolvimento Sustentável também mostra um mercado em expansão mas ainda em busca de estrutura e legitimidade. São profissionais altamente capacitados, atuando com propósito, mas muitas vezes sem o suporte e os recursos necessários para implementar mudanças de impacto.
2. Gênero: a sustentabilidade é feminina, mas não igualitária
A Pesquisa Profissionais pelo Desenvolvimento Sustentável confirma uma tendência já observada em edições anteriores: as mulheres são maioria absoluta na sustentabilidade. Elas representam 66% dos respondentes, contra 29% de homens e 5% que se identificam em outras categorias de gênero.

Entretanto, essa predominância não se traduz em igualdade de oportunidades. A diferença salarial é marcante: apenas 19% das mulheres estão nas faixas acima de R$ 15.000, enquanto entre os homens esse percentual é de 30%.
O dado reforça um paradoxo: em um campo que se propõe a promover diversidade e equidade, a desigualdade de gênero ainda é estrutural. Além disso, os cargos mais altos continuam majoritariamente masculinos. Enquanto o cargo mais comum entre as mulheres é o de consultora, entre os homens o destaque é o de coordenador e gerente — posições mais associadas à liderança e maior remuneração.
Esses números da Pesquisa Profissionais pelo Desenvolvimento Sustentável pedem reflexão. Se a sustentabilidade quer ser coerente com seus valores, a equidade precisa começar dentro da própria profissão.
3. Perfil e formações: engenharias e administração dominam, ESG surge como área própria
Outra descoberta interessante é a mudança no perfil de formação. Embora as engenharias e administração continuem entre as áreas mais representativas, a formação específica em ESG/Sustentabilidade já aparece em terceiro lugar, com 11% dos respondentes.
Esse dado mostra o amadurecimento do campo como disciplina autônoma e interdisciplinar. Há uma nova geração de profissionais que já ingressam no mercado com especialização direta em ESG, o que tende a fortalecer o reconhecimento técnico e a padronização de práticas.
Regionalmente, a predominância ainda está concentrada no Sudeste (68%), seguida do Sul (16%), mantendo a concentração geográfica observada em anos anteriores.
Racialmente, 72% se declaram brancos, e apenas 26% pertencem a grupos pretos e pardos, revelando outro desafio de inclusão e representatividade no setor.
4. Carreira movida por propósito — e com custo pessoal
A motivação mais citada na Pesquisa Profissionais pelo Desenvolvimento Sustentável pelos profissionais segue sendo a realização pessoal e o trabalho com propósito.
Na edição 2025, 63% dos respondentes apontaram essa razão como principal impulso para atuar na área, seguida de admiração pelo tema (16%) e oportunidade de carreira (11%).

Essa constância mantida desde as primeiras edições da pesquisa revela que a sustentabilidade continua atraindo profissionais idealistas e vocacionados para transformar.
Mas há um contraponto importante da Pesquisa Profissionais pelo Desenvolvimento Sustentável: quando a motivação se baseia quase exclusivamente no propósito, há o risco de precarização emocional e financeira. Muitos profissionais relatam frustração, sobrecarga e dificuldade de ascensão, especialmente entre as mulheres.
O “propósito” não pode ser a justificativa para aceitar condições inferiores de trabalho ou remuneração.
É preciso fortalecer a estrutura de reconhecimento e progressão de carreira no setor, garantindo que o engajamento genuíno venha acompanhado de valorização e equilíbrio.
5. Os desafios da profissão: engajamento, cultura e apoio institucional
A Pesquisa Profissionais pelo Desenvolvimento Sustentável 2025 também identificou os principais obstáculos enfrentados no dia a dia dos profissionais ESG. Os quatro mais citados foram:
- Promover o conhecimento e a importância do tema (28%)
- Falta de interesse e engajamento no tema (19%)
- Falta de comprometimento da alta administração (15%)
- Baixo ou nenhum investimento (12%)
Esses desafios se repetem em empresas de todos os portes e setores. Na prática, ainda há um abismo entre o discurso e a ação corporativa.
Muitos profissionais relatam a sensação de estarem “pregando para convertidos”, ou seja, desenvolvendo projetos consistentes, mas sem o apoio real das lideranças para integrá-los às estratégias centrais de negócio.
Outro ponto relevante da Pesquisa Profissionais pelo Desenvolvimento Sustentável é a persistência do greenwashing e a priorização de resultados financeiros de curto prazo, que continuam entre os fatores mencionados.
Isso demonstra que o desafio da sustentabilidade no Brasil é menos técnico e mais cultural: passa pela transformação de mentalidades, incentivos e modelos de decisão corporativa.
Sustentabilidade como carreira em construção
Em síntese, o que a Pesquisa Profissionais pelo Desenvolvimento Sustentável de 2025 revela é um campo maduro em formação e conhecimento, mas ainda imaturo em reconhecimento e estrutura.
Os números da Pesquisa Profissionais pelo Desenvolvimento Sustentável contam uma história de conquistas e contradições:
- Profissionais altamente qualificados, mas sub-remunerados.
- Maioria feminina, mas desigualdade persistente.
- Crescente relevância corporativa, mas baixo engajamento institucional.
- Forte motivação por propósito, mas vulnerabilidade emocional e financeira.
É um retrato de uma profissão em transição, que precisa consolidar suas bases para sustentar o impacto que busca gerar.
A sustentabilidade não pode depender apenas do entusiasmo de indivíduos — ela precisa de modelos de carreira, políticas salariais, lideranças engajadas e estruturas de governança que assegurem continuidade e reconhecimento.
Caminhos para o futuro
Para transformar esse cenário, é essencial:
- Reforçar a institucionalização das áreas de sustentabilidade dentro das empresas, com orçamentos e indicadores próprios.
- Promover equidade salarial e representatividade nos cargos de liderança.
- Valorizar a formação e certificação técnica, integrando sustentabilidade a carreiras de gestão, finanças, operações e inovação.
- Cuidar da saúde mental e do equilíbrio de propósito e performance dos profissionais.
- Ampliar a presença regional e racial dos profissionais pelo desenvolvimento sustentável, levando oportunidades para além do eixo Sul-Sudeste.
Esses passos não apenas fortalecem a profissão, mas também contribuem para a consolidação de um ecossistema ESG mais coerente, estratégico e transformador.
Propósito, profissionalismo e poder de transformação
A Pesquisa Profissionais pelo Desenvolvimento Sustentável 2025 é, acima de tudo, um espelho da realidade e um convite à ação.
Mostra o quanto já avançamos como comunidade, mas também o quanto ainda precisamos crescer para que a sustentabilidade deixe de ser “departamento” e se torne centro de decisão e valor nas organizações.
A boa notícia é que há um capital humano extraordinário — qualificado, engajado e movido por propósito — disposto a fazer essa transformação acontecer. Cabe às empresas, às lideranças e às instituições criar as condições para que esse talento floresça.
Porque, no fim das contas, não existe desenvolvimento sustentável sem profissionais valorizados, reconhecidos e sustentáveis em sua própria jornada.













