
A promessa de uma Copa do Mundo Sustentável foi cumprida? A copa rolou no Qatar e entre zebras, “meio feriados”, Messi campeão e aquele abraço num completo desconhecido para comemorar um gol (2022, o ano pós pandemia ????), vamos lembrar que essa copa tinha a bandeira da Sustentabilidade como seu principal pilar.
Nós já havíamos citado esse evento no post Sustentabilidade em Grandes Eventos Esportivos e é sempre bom retomar certos temas. Dentre os objetivos de Sustentabilidade para a Copa do Catar 2022 o que mais se destacou e chamou a atenção mundial foi o compromisso de fazer uma Copa do Mundo neutra em carbono!
A diretora executiva de sustentabilidade da copa do Qatar deu uma entrevista em agosto de 2022 e disse:
“Nós tivemos um planejamento de cinco etapas para uma Copa do Mundo neutra em carbono. Levantamos uma grande preocupação com as partes interessadas, explicando as nossas necessidades. Procuramos mitigar, reduzir e eliminar o máximo possível de emissões. Contratamos uma consultoria para fazer um relatório. E tudo do projeto que não puder ser evitado, vamos compensar com créditos de carbono.”
Vamos falar um pouco sobre isso aqui e tentar deixar alguns pontos mais claros dentro da mensagem passada pela organização do evento.
Carbono Zero ou Neutro: o que é isso?

Carbono Zero é uma política desenvolvida por uma série de empresas que tem como intuito neutralizar a emissão de gases do efeito estufa por parte das pessoas e das próprias indústrias. Na prática, ela funciona como um tipo de crédito, uma espécie de balança ecológica.
Essa definição é importante para que fique claro que ainda tivemos a emissão de gás carbônico antes, durante e depois da Copa do Mundo do Qatar 2022. Especialmente no que envolve o DESLOCAMENTO de pessoas e de materiais (guarda isso, vamos voltar mais tarde nessa parte), é praticamente impossível não produzir gás carbônico. Contudo, com essa política de carbono zero, a organização da Copa do Mundo do Qatar 2022 buscou mitigar e COMPENSAR (foca nesse termo que vai ser importante ok) a emissão de forma a tentar equilibrar a balança ecológica citada acima.
Pegaram a visão? É preciso saber como funciona o processo do Carbono Zero para conseguir entender quais são as promessas do evento e podermos averiguar o que realmente foi feito (e COMO foi feito!).
Estádios
No quesito estádios, confesso que estou boquiaberto com o resultado entregue pelo evento, especialmente com o 974 (mesmo com o apagão que tivemos no confronto do Brasil com a Suíça). Refrigeração, reaproveitamento de água, uso de energia renovável, reciclagem do lixo produzidos durante evento, design para melhor aproveitamento durante e pós evento, área verde nos arredores para compensação (olha aí o termo de novo) de carbono, estádio desmontável… gabaritaram! Mas, o grande questionamento e as críticas dos especialistas em sustentabilidade estão na construção dos estádios e no deslocamento do público para o evento.

A alegação é que os dados apresentados pelo comitê organizador subestimaram as emissões na construção dos estádios e que isso aumentaria de forma drástica a estimativa em mais de 1,6 milhões de toneladas de carbono, segundo cálculo do Carbon Market Watch (grupo ambiental sem fins lucrativos com sede na Bélgica).
O comitê organizador afirma que os estádios serão reaproveitados pelo país para outros fins após a Copa do Mundo e que, por isso, apenas uma parcela das emissões de construção dos estádios foi incluída nas estimativas oficiais. Contudo, os críticos abordam que eles não teriam sido construídos se não fosse pelo evento e existe a possibilidade que virem “elefantes brancos” após o evento, como é o caso de certos estádios construídos para uma outra Copa do Mundo num país chamado Brasil.
Infelizmente, a mancha negra referente aos estádios foi durante o período da construção. Muitas denúncias sobre as condições de trabalho precárias, horas abusivas, casos de mortes oriundas de acidentes e outros casos que foram noticiados pela mídia internacional (e que foram negados pelo comitê organizador) deixaram uma imagem negativa para os belíssimos estádios que foram apresentados na Copa do Mundo do Qatar.
Durante o evento, realmente os estádios atenderam à expectativa e foram extremamente sustentáveis, especialmente no que se refere a emissão de carbono já que usavam um excelente sistema de reaproveitamento de água e energia de fontes sustentáveis. Agora é esperar e ver se o pós evento deles será como prometido ou se serão apenas grandes elefantes brancos no deserto.
Logística de transportes
Esse é um tema que muito me interessou pois muito se falou sobre como seria feito o transporte em massa dos visitantes e das delegações durante o evento. Estive em contato com um amigo que estava trabalhando no local na parte de logística de transporte e ele me passou um parecer bem direto, honesto e sem clubismo.
O metrô era uma opção muito boa pois dava acesso a 7 dos 9 estádios (o que foi muito bem planejado) e ainda existia a opção de serviço de ônibus e VLT para todos os estádios visto que somente o metrô não daria conta da demanda sozinho. Quem já viveu a experiência de um grande evento (ou já foi a uma partida de futebol) sabe o tumulto que fica na chegada e na saída, portanto ter opção de transporte para deslocamento faz total diferença.
Cerca de 15% da frota de ônibus foi elétrica!! A frota a qual ele estava designado para gerenciar era totalmente elétrica (120 ônibus) compostas por modelos urbanos. De acordo com dados da organização do evento mais de 4 mil ônibus elétricos foram usados durante o evento. No caso das delegações, que usam modelo luxo turismo, os ônibus não eram elétricos, porém os veículos usados para membros da organização do evento (cedidos pelos patrocinadores) eram elétricos ou híbridos.

Isso foi sem dúvidas um grande impacto para a redução das emissões de carbono já que, durante megaeventos como a Copa do Mundo, o deslocamento de pessoas é um dos grandes responsáveis pela geração de gás carbônico na atmosfera pelo grande número de transporte utilizados.
Acomodações

Meu “informante” do Qatar disse que não viu problemas de acomodação durante o evento. As áreas mais turísticas ficaram mais cheias, mas o uso de 3 navios de cruzeiro que para viabilizar mais leitos para os visitantes ajudou muito e evitou a construção de novos hotéis, reduzindo assim a emissão de gás carbônico. A maior parte das empresas de cruzeiros marítimos tem seus próprios procedimentos de sustentabilidade e buscam sempre a melhor interação com a natureza e podem acomodar um grande volume de visitantes.
Sobre esse ponto precisamos destacar que, devido a proximidade com outros países do Oriente Médio, muitos visitantes optaram por viajar apenas para os jogos e ficar hospedados em países vizinhos, fazendo o percurso de avião durante o evento para os dias de jogos. Isso, definitivamente, aumenta a emissão de CO2 mas se levarmos em conta que se eles ficassem no Qatar ainda haveria o deslocamento aéreo e teriam produzido uma maior emissão de carbono na atmosfera, confesso que fico na dúvida se isso é um ponto negativo ou positivo para o evento.
Compensação de Carbono
A FIFA e o comitê organizador prometeram compensar os créditos de carbono que não foram possíveis de ser evitados pelo evento da Copa do Mundo do Qatar. Tenho acessado o site da FIFA (https://www.fifa.com/social-impact/sustainability) para ver o relatório dessa compensação e ainda não encontrei nada. Existem referências bonitas sobre todas as promessas feitas para o evento com imagens de feitos das Copa (usaram Messi, Marrocos e nosso “pombo” Richarlison) para ilustrar alguns dos pontos positivos do evento, mas números reais, gráficos e quantitativos eu não encontrei.

E é isso que esperamos quando somos prometidos de alguma coisa: resultados! Eu acredito sim que essa Copa do Mundo foi mais sustentável que as anteriores e que precisa ser usada como parâmetro para as próximas. Mas sem um relatório como dados válidos para ser analisado fica difícil dar credibilidade ao resultado apresentado. Cabe à FIFA liberar todos esses dados e permitir que eles sejam a base para que as próximas sedes tenham como diretriz, já contando para a Copa do Mundo Feminina que será realizada agora em 2023 e sediada na Austrália e Nova Zelândia (vocês sabiam disso?).













